Rio Maior, 1975
Um registo audiovisual sobre os acontecimentos de 13 de Julho e 25 de Novembro de 1975 em Rio Maior.
Palavras do Presidente da APA
Na qualidade de Presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Região de Rio Maior (APA), é com grande orgulho e sentido de responsabilidade que me dirijo a todos, neste momento tão simbólico.
Quero, em primeiro lugar, destacar o facto de esta Associação ter sido constituída a 3 de dezembro de 1974, há precisamente 51 anos. Foi uma das primeiras associações de agricultores fundadas no novo regime democrático, nascida da vontade firme de defender os direitos dos produtores agrícolas da nossa região.
Deixo aqui uma sentida homenagem a todos os que, com visão e coragem, subscreveram os estatutos fundadores. Em especial, quero prestar tributo a um dos mais notáveis entre eles - o agricultor Adelino da Costa Bernardes, que presidiu esta instituição durante mais de quatro décadas. Muito do que a nossa Associação é hoje se deve ao seu trabalho incansável e ao seu espírito de missão. Trabalhou longos anos com prejuízo para a sua vida pessoal, sempre em prol desta casa, sem nada pedir em troca. Por motivos de saúde - e a seu pedido - deixou recentemente a presidência. Em nome de todos: um bem-haja, Adelino Bernardes.
Quero ainda deixar um agradecimento muito especial à nossa colaboradora Isabel Henriques, que com toda a sua dedicação tem assegurado, há décadas, o bom funcionamento desta casa.
A minha segunda palavra é de sincero reconhecimento a todos os que aceitaram colaborar comigo nesta nova fase da Associação. Alguns já faziam parte da estrutura, outros entraram de novo, mas todos compõem uma equipa extraordinária, da qual me orgulho profundamente.
"Há 50 anos, os agricultores da nossa região levantaram-se na defesa da propriedade privada e da liberdade do agricultor. O nosso Grémio da Lavoura resistiu à tentativa de ocupação por forças reacionárias de esquerda. Hoje, como ontem, estamos aqui: firmes, unidos e fiéis aos nossos princípios."
Resta-me um último agradecimento a todos os que colaboraram na edição do livro comemorativo dos 50 anos do 13 de Julho. O vosso contributo foi essencial para que este número refletisse a história, a luta e a identidade dos nossos agricultores.
J. N. G., Presidente da APA de Rio Maior
O dia em que Rio Maior disse não
Aconteceu há 50 anos. Foi no dia 13 de julho de 1975, em Rio Maior.
Portugal vivia em plena ditadura gonçalvista, com a comunicação social nacionalizada, tal como a banca, os seguros e as maiores empresas. Sucediam-se as ocupações selvagens a herdades, empresas e outras estruturas da lavoura no Alentejo e no Ribatejo. A única estação de televisão do país bombardeava a toda a hora com palavras de ordem do socialismo - "morte aos latifundiários! O poder aos trabalhadores!" - e quem não se dizia comunista era rotulado de fascista. As greves sucediam-se na cintura industrial de Lisboa e os donos das fábricas eram obrigados a abandoná-las.
Foi neste ambiente que a Liga dos Pequenos e Médios Agricultores, afeta ao Partido Comunista, vinha ocupando os grémios da lavoura a partir do sul do país, tendo marcado para Rio Maior a ocupação do grémio local, ao meio-dia de 13 de julho de 1975.
Como o país vivia num clima de medo, ninguém ousava enfrentar a ditadura instalada. Mas os agricultores de Rio Maior foram os primeiros a opor-se ao estado de terror imposto pela extrema-esquerda: concentraram-se à porta do seu Grémio e não permitiram que a ocupação se desse. Uma fuga de informação, na véspera, tinha posto os agricultores em alerta - e ao saberem que o seu Grémio estava prestes a ser ocupado por gente vinda de Alpiarça e arredores, os populares mobilizaram-se para o impedir.


Houve escaramuças, apreensão de espingardas aos ocupantes e a destruição das sedes locais do Partido Comunista e da Frente Socialista Popular. Foi o primeiro grito de revolta contra os desmandos que ameaçavam o país - e, como não houve repressão policial, as ações alastraram-se a outros municípios, sobretudo a norte.
Como curiosidade, dias antes tinha sido "apresentada" a moca de Rio Maior, criação de "Abílio das Lenhas", objeto que ficou associado a estes acontecimentos - e que hoje persiste, despido de qualquer conotação política, no artesanato local.
Os ânimos acalmaram horas depois com a chegada de militares do Regimento de Infantaria nº 5, de Caldas da Rainha. Mas no dia seguinte voltaram a inflamar-se com os comentários dos jornais de Lisboa, controlados pelo Conselho da Revolução, que chamavam "arruaceiros" aos riomaiorenses - o que levou a população a unir-se de novo, desta vez para interceptar e destruir na estrada os exemplares dos jornais vindos da capital, num boicote que durou mais de uma semana.

Neste momento de união, nasceu o embrião da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que seria fundada nesse mesmo ano, brotando de uma magna reunião em Rio Maior. Aos agricultores de Rio Maior juntaram-se agricultores de todos os cantos de Portugal, numa luta que se prolongou por quatro meses, com manifestações e plenários em todos os distritos e concelhos do país - até à grande manifestação de milhares de agricultores, na tarde de 24 de novembro, que daria o mote para os acontecimentos do dia seguinte: o 25 de Novembro de 1975, em que a esquerda reacionária foi derrotada e reposta a democracia prometida em 25 de Abril.
Feriado Municipal
De 1976 a 1985, o feriado municipal de Rio Maior celebrava-se a 13 de julho, com o nome de "Dia do Agricultor Livre". Hoje subsiste a Avenida 13 de Julho, que liga a Estrada Nacional 1 (EN1) à Estrada Nacional 114 (EN114) - homenagem justa ao que essas duas vias estruturantes significaram, e significam, para a região e para o país.
Foi José Valério Colaço - então um jovem ligado à música, à cultura e ao movimento associativo, hoje técnico farmacêutico aposentado - quem registou com a sua câmara fotográfica alguns dos momentos desse "turbilhão de acontecimentos" vividos nas ruas de Rio Maior, captando a prova da solidariedade e união de cidadãos, trabalhadores e proprietários na defesa da sua terra, do seu país e da liberdade.
"O 13 de Julho de 1975 em Rio Maior NÃO MORRE! Foram os agricultores livres que escreveram essa página da nossa História. Em plena ditadura gonçalvista, os agricultores de Rio Maior não hesitaram!"
Parte do Relatório Histórico "O 13 de Julho de 1975 em Rio Maior - Cronologia, Protagonistas e Legado", citado no livro comemorativo: "Em 13 de julho de 1975, a vila ribatejana de Rio Maior tornou-se palco de um dos episódios mais marcantes do chamado Verão Quente pós-Revolução de Abril."
"Comunicado do Povo de Rio Maior"
Dois dias depois do 13 de Julho, o governador civil de Santarém e altas patentes militares deslocaram-se a Rio Maior para reunir com o Presidente da Câmara e o representante dos agricultores. Nascia daí um comunicado, redigido pelo próprio povo do concelho para responder à campanha de difamação lançada pela imprensa nacionalizada.
Rio Maior, 15 de Julho de 1975
"O POVO DO CONCELHO DE RIO MAIOR, alvo de humilhante e insidiosa adjectivação através da rádio, da TV e da Imprensa, quanto à legítima posição que tomou em relação a assuntos de interesse local que a ele e só a ele dizem respeito, reivindica o direito de ser respeitado quanto à verdade da sua luta e dos seus sentimentos, repudiando ser "albergue de pides" ou "quintal de caciques", não consentindo, assim, que o seu pensamento ou opinião possa ser injustamente classificado de reaccionário [...]
E, portanto, exige que a sua actuação, que tem um carácter apartidário, possa e deva ser exclusivamente interpretada como uma afirmação de independência e um desejo fremente de que nesta terra livre, neste País, desapareçam os gérmens da confusão e da divisão.
Lido este comunicado, que foi elaborado pelos representantes do POVO e por este aprovado, foi seguidamente exigido que também fosse expressa a sua repulsa pelas mentiras contidas nos comunicados partidários a que os órgãos de comunicação social tão levianamente deram guarida, ou sejam os emanados pelo P.C.P. e pela F.S.P.
Fique, pois, para além deste formal e sincero repúdio, o grato relevo da presença e concurso das Forças Armadas e Militarizadas, que procuraram e procuram que os acontecimentos de Rio Maior tenham a limpidez das coisas honradas que a dignidade do POVO Português exige para bem de Portugal."
Retirado do livro "O Caso Rio Maior", de Meira Burguete (1978)
A pressão surtiu efeito: quatro dias depois, a RTP transmitiu em horário nobre um comunicado reconhecendo a versão dos agricultores. Meira Burguete escreveria mais tarde: "Rio Maior está no centro de todas as atenções, estão em Portugal várias estações de televisão e jornais estrangeiros. Os partidos políticos vêem a Rio Maior em busca de apoio." A 13 de agosto, exatamente um mês depois do 13 de Julho, o Partido Socialista realizou um comício em Rio Maior para apoiar os agricultores; vieram também o CDS e o PPD/PSD. Centenas de telegramas de solidariedade chegaram de todo o país à Associação dos Agricultores (AARM).
Relembrar o 25 de Novembro de 1975
Foi aqui, em Rio Maior, na véspera do 25 de novembro de 1975, que se deu o sinal necessário para que as forças armadas moderadas avançassem para a conquista da liberdade e da democracia que havia sido amordaçada em 11 de março desse ano - data em que fora nomeado, sem eleição, Vasco Gonçalves para primeiro-ministro, com nacionalização imediata da banca, dos seguros, da comunicação social e das grandes empresas.
Nesse verão quente, o Alentejo e o Ribatejo estavam sob forte influência do Partido Comunista: as cooperativas a sul do Tejo, e as ligas de pequenos e médios agricultores, estavam nas suas mãos, e essas estruturas vinham ocupando os grémios da lavoura por todo o país. O primeiro ensaio dessa avançada para norte deu-se mesmo às portas de Rio Maior, com a ocupação selvagem da Torre Bela.
À Associação dos Agricultores de Rio Maior (AARM) chegavam, de todas as partes do país, centenas de telegramas a felicitar os agricultores pela sua tomada de posição em julho. Perante isto, a AARM criou um Secretariado Nacional de Agricultores (SNA), presidido pelo Eng. José Casqueiro, para divulgar os passos a dar face ao descalabro que o país enfrentava. Com a conivência de militares moderados, marcou-se para Rio Maior, a 24 de novembro, uma manifestação de âmbito nacional: mais de 50 mil agricultores, segundo o testemunho direto de Joaquim Nazaré Gomes.



Nessa grande manifestação foi aprovado o Caderno Reivindicativo de 13 pontos e decidido o corte das estradas de Lisboa ao Porto, de Porto Alto, da linha de comboio do Oeste e ainda de outras vias secundárias, com o fim de pressionar o governo a aprovar as reivindicações dos agricultores.
A madrugada em que tudo mudou - testemunho de Joaquim Nazaré Gomes
- -Terminada a grande manifestação, o representante dos agricultores, Eng. José Casqueiro, é abordado por dois elementos do Conselho da Revolução, que lhe pedem para uma delegação se deslocar a Belém.
- -Partem de Rio Maior quatro agricultores: o Eng. José Casqueiro, Luís Madeira, Guilherme Jacinto e Joaquim da Nazaré Gomes.
- 06hA reunião no Palácio de Belém, com o Conselho da Revolução, termina com a promessa de que o governo analisaria as pretensões dos agricultores.
- -À saída, os delegados cruzam-se com Jaime Neves, no início da Calçada da Ajuda, que lhes diz estar ali para intercetar material militar vindo de Angola.
"Horas depois vim a saber que já estava em marcha o 25 de Novembro, onde finalmente nos foi restituída a liberdade e a democracia que nos tinha sido prometida no 25 de Abril de 1974."
Dois homens, uma causa

Eng.º José Manuel Casqueiro
Presidente do Secretariado Nacional de Agricultores
Homem de uma coragem inabalável, resistiu a várias ameaças de morte e enfrentou inúmeros perigos ao longo da sua vida associativa. Presidiu o Secretariado Nacional de Agricultores, sediado em Rio Maior, e organizou dezenas de plenários por todo o país, entre julho e novembro de 1975, contra a política agrícola vigente e a Lei nº 406-A, que legitimava as ocupações selvagens.
Na grande manifestação de Rio Maior, a 24 de novembro de 1975, teve a coragem de anunciar o corte da estrada de Lisboa ao Porto, da linha férrea do Oeste e de várias estradas secundárias, para pressionar o Governo. A partir do dia seguinte, continuou a contestar as ocupações selvagens e subscreveu os estatutos da CAP, da qual foi Secretário-Geral durante vários anos.
Um grupo de agricultores dedicou-lhe uma homenagem, erigindo um monumento à sua memória no CNEMA, em Santarém. Foram subscritores desta homenagem: Prof. Raul Miguel Rosado Fernandes, José Maria Queiroga, José Joaquim Andrade, João Machado, António Gonçalves Ferreira, Edgar Pontes Jorge, Fernando Pereira Caldas, Fernando Van Zeller Palha, Joaquim Nazaré Gomes, José Luís Barroso, José Luís Figueira e Tomaz Estevam.

Adelino da Costa Bernardes
O homem do associativismo
Histórico Presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Região de Rio Maior, teve um papel preponderante nos acontecimentos do 13 de Julho de 1975. Foi ele o escolhido para representar os agricultores dois dias depois, numa reunião na Câmara Municipal com o Presidente da Câmara, o Governador Civil de Santarém e representantes das Forças Armadas - reunião destinada a acalmar os agricultores e a população perante os insultos que lhes eram dirigidos pelos órgãos de comunicação social controlados pelo Partido Comunista.
Durante o seu mandato, adquiriu o imóvel da sede da associação e todo o equipamento que a compõe. Ocupou vários cargos no associativismo: foi Vice-Presidente da Cooperativa Agrícola de Rio Maior e da Escola Profissional, Presidente da Assembleia Geral das Federações Agrárias e é hoje Presidente da Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos do Ribatejo e Oeste, e da APRODER. Em 1991, no âmbito das comemorações do Feriado Municipal, foi homenageado com a Medalha do Concelho, "em reconhecimento pela dedicação a Rio Maior".

"50 anos passaram!"
Excertos do discurso de Joaquim Nazaré Gomes, Presidente da APA de Rio Maior, nas comemorações dos 50 anos do Dia do Agricultor Livre, a 13 de julho de 2025.

"Permitam-me agora recuar cinquenta anos. Era também domingo, 13 de Julho de 1975, quando centenas de agricultores desta região se concentraram diante do Grémio da Lavoura de Rio Maior para impedir a sua ocupação.
Ora, dois agricultores do nosso Concelho tiveram conhecimento da intenção, na véspera da ocupação do Grémio, e correram a dar a notícia. Assim, à hora marcada, mais de 400 agricultores estavam à porta do edifício. [...] Seguiram-se escaramuças; alguns agricultores vasculharam as bagageiras dos carros dos ocupantes e encontraram espingardas de caça que foram entregues à GNR. Houve quem, num gesto de legítima indignação, destruísse as sedes locais do Partido Comunista e da Frente Socialista.
Rio Maior lançou, nesse dia, o primeiro grito de revolta contra os desmandos que ameaçavam o país. À causa dos agricultores juntou-se a população. E nessa noite, mais de 20 mil pessoas manifestavam-se na Praça da República. Foi então necessária a intervenção de uma força do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha para repor a ordem.
Durante vários dias concentrávamo-nos diante da Câmara Municipal, exigindo a verdade na informação. [...] Entretanto chegavam a esta Associação apoios de agricultores de toda a parte do país, o que levou à criação do Secretariado Nacional dos Agricultores a Nível Nacional, presidido pelo saudoso Eng.º Casqueiro.
Na sequência destes plenários, realizou-se em Rio Maior, em 24 de Novembro de 75, uma imensa manifestação de mais de 60 mil agricultores. Nesse dia, foram aprovados os Estatutos da CAP e o corte da Estrada Nacional Nº 1, que ligava Lisboa ao Porto, bem como outras vias secundárias e a linha férrea do Oeste. Estou convicto de que estes acontecimentos contribuíram decisivamente para o êxito do 25 de novembro, data em que nos foram restituídas a liberdade e a democracia prometidas a 25 de Abril.
50 anos passaram! Celebramos, hoje, não apenas uma memória: celebramos a coragem, a união e o espírito livre de quem trabalha a terra e alimenta Portugal."
Joaquim Nazaré Gomes, 13 de julho de 2025
A fundação da CAP nasceu em Rio Maior
A mobilização de Rio Maior teve um legado organizativo duradouro: a criação da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). O Secretariado Nacional de Agricultores, sediado na vila, atuou como embrião da Confederação, cujos estatutos foram aprovados na grande manifestação de 24 de novembro de 1975. Rio Maior foi sede da CAP durante quase duas décadas, até a Confederação se transferir para Lisboa em 1993.
O Eng. José Manuel Casqueiro tornou-se o primeiro Secretário-Geral da CAP; Raúl Rosado Fernandes, cofundador, seria mais tarde eleito presidente da Confederação. Do lado local, a APA de Rio Maior tornou-se uma das associadas nucleares, com Adelino da Costa Bernardes a representar a vila nos congressos fundadores.
Eng.º Luís Mira, Secretário-Geral da CAP
"Em 13 de julho de 1975, em Rio Maior, centenas de agricultores uniram-se para proteger o Grémio da Lavoura, num gesto de firmeza e coragem que se tornou símbolo da defesa dos direitos do setor e da dignidade da agricultura nacional. Este levantamento marcaria o início de um movimento de defesa da propriedade privada, fundamental para a estabilização do processo democrático e para a consequente consolidação da democracia em Portugal. [...] Os agricultores de Rio Maior [...] estão de parabéns por terem proporcionado liberdade aos nossos agricultores durante cinco décadas, e por terem contribuído para a liberdade de todos os portugueses."
O testemunho pessoal chega também de Maria Júlia Figueiredo, que escreveu para o livro comemorativo: "Boa memória deste dia que, há 50 anos, disseram 'Não, Nunca' aos oportunistas sem carácter. [...] trabalhar a terra é ter coragem para obter a liberdade [...] o parasitismo não vencerá."
Em julho de 2025, nas comemorações dos 50 anos do "Dia do Agricultor Livre", a direção nacional da CAP celebrou a efeméride na própria vila, reconhecendo que foi "desse movimento de agricultores livres, em julho de 1975, que viria a nascer" a Confederação.
13 de julho de 2025, Rio Maior
No ano em que assinalou 51 anos de existência, a Associação dos Produtores Agrícolas da Região de Rio Maior celebrou, com grande dignidade e espírito de união, o 50º aniversário do Dia do Agricultor Livre. As comemorações tiveram início com um desfile de tratores pelas ruas da cidade, culminando no Jardim Municipal, local de encontro e confraternização da comunidade agrícola.
O Presidente da Assembleia Geral da Associação, Dr. Hélder Ferreira dos Santos, prestou uma sentida homenagem a alguns dos agricultores fundadores que participaram nos acontecimentos de 1975: Alberto Nogueira Costa, Celestino Guedes Nogueira Santo, Joaquim da Nazaré Gomes, Vítor Machado Sequeira, António Carvalho Machado e o Eng.º José Luís Antunes Barroso - com referência muito especial a Adelino da Costa Bernardes.
Seguiu-se o descerramento de uma placa comemorativa do Dia do Agricultor Livre, e a jovem agricultora Adriana Agostinho proferiu uma alocução em honra do agricultor livre, sublinhando o valor da perseverança e da liberdade como pilares da vida rural. O Presidente da Associação, Joaquim Nazaré Gomes, evocou os acontecimentos entre 13 de julho e 25 de novembro de 1975, e o Presidente da CAP, Dr. Álvaro Mendonça e Moura, recordou os factos daquele dia histórico. Por fim, o Presidente da Câmara Municipal, Eng.º Luís Filipe Santana Dias, destacou o papel dos agricultores na resistência ao coletivismo do "Verão Quente" de 1975. As celebrações encerraram com um almoço-convívio e música ao vivo.









A Direção da Associação (2025)
- Joaquim Nazaré Gomes - Presidente
- Reinaldo Neves Costa - Secretário
- João Deus Dias Ferreira - Tesoureiro
- José Fernando Machado Correia Santos - Vogal
- Francisco José Matias Paz - Vogal
Um concelho de oportunidades
O que há 50 anos era uma pequena vila é hoje uma cidade moderna e vibrante, com cerca de 21 mil habitantes, situada a norte do rio Tejo, a apenas 70 km de Lisboa. Com uma área de 272,76 km² e composta por 10 freguesias, Rio Maior - conhecida como a "Cidade do Desporto" - mantém vivas as suas raízes agrícolas, sendo amplamente reconhecida pelo seu forte contributo nos setores da agricultura, pecuária e floresta.

1. Floresta
Cerca de 13.500 hectares de área florestal, sobretudo de eucalipto. Mais de 70% da floresta do concelho está ordenada, o que ajuda na prevenção de incêndios e na certificação da madeira.
2. Vinha
250 a 300 hectares de vinha, produzindo 1,5 a 2 milhões de litros de vinho por ano. Destacam-se a Adega Porta de Teira, as Caves D'Alagoa, a Quinta da Badula, a Quinta da Cortiçada e a Quinta dos Penegrais.
3. Azeite
Seis lagares em atividade processam cerca de 4.000 toneladas de azeitona por ano, sobretudo da variedade galega, com azeite muito apreciado no mercado nacional.
4. Cultura Biológica
O modo de produção biológico iniciou-se em 1994, com 42 hectares pioneiros na aldeia de Correias, sob liderança do Prof. Virgílio Pestana. Hoje a adesão continua a crescer em várias freguesias.
5. Panificação
A Costa & Ferreira, detentora da marca "Pão de Rio Maior" - o primeiro pão certificado de Portugal - produz cerca de 300 mil unidades diárias, com projeção de crescimento até 400 mil em 2025.
6. Minerais
Sílicas puras, argilas cauliníticas e calcários ornamentais, explorados sobretudo pela Sifucel (Grupo Parapedra) e pela multinacional Sibelco, com forte capacidade exportadora.
7. Produção de Sal
As Marinhas do Sal - Fonte da Bica - são a única exploração salineira de interior em Portugal, ativa desde o século XII. Em 2025, o "Sal de Rio Maior" e a "Flor de Sal de Rio Maior" receberam a Denominação de Origem Protegida (DOP) da Comissão Europeia.
8. Pecuária
Mais de 100 explorações suinícolas ativas (90 mil suínos), 300 explorações avícolas, 60 explorações de bovinos e mais de 200 de ovinos e caprinos - com exportação para a China, Filipinas, Israel e União Europeia.
9. Horto-industrial
O tomate para a indústria transformadora é uma das culturas mais emblemáticas do concelho, escoado sobretudo para a fábrica de transformação de tomate em pasta de São João da Ribeira.

Poemas de 1980
Cinco anos depois dos acontecimentos, dois poetas locais deixaram registada em verso a memória do 13 de Julho.
Para Ti, Agricultor Livre...
Nasce o Sol além da Serra
É vida que dá vida ao novo dia
Teus pés seguem os trilhos da terra
E granjeias o Pão com alegria
É honrado o teu viver... Ó lavrador
Sem ti, a loira espiga não nascia
Ela é o fruto do trabalho e do suor
Da enxada com que lutas dia a dia
Tu que és homem e labutas pelo pão
E foges à "besta que dá coice"
Sabes o que vai no coração
Dos que cruzam o martelo com a foice
Feliz sejas tu, agricultor
Que a vida para ti seja melhor
Junto a estes amigos sem temor
Aqui, no teu dia a dia, em Rio Maior
Liberdade para ti... irmão
Num ramo que te mando, em cravos mil
Se sabes viver de ilusão
Mereces a liberdade dum abril
Grita bem alto... liberdade
Com a força do teu peito, ó lavrador
Aqui neste castelo de lealdade
Aqui amigo, é Rio Maior
Santiago Pinto - Julho de 1980
Salvé 13 de Julho!
Se não fosse Rio Maior, o que seria?
A nossa triste sina era fatal!
Cada vez mais perto estava o dia
De nova ditadura em Portugal.
Com este gesto nobre e tão viril
A pátria aguentou o repelão,
E não consentiu que gente vil
Tomasse conta da nação.
Embora haja canalha violenta
Também este país a comandar,
E cada vez esteja mais sedenta
de nosso pobre povo dominar.
Ainda português é acordar!
Não te deixes embalar por mais "cantigas",
Vê que só te querem desgraçar,
Pois cada vez te forjam mais intrigas.
Coitado do que trabalha realmente,
Se eles tomam mesmo conta do poder!
Fica só, privilegiada, certa gente,
E quem não for da cor, fica a sofrer...
Mais um "13 de julho" vai passar,
Que a muitos causou grandes engulhos,
Todo o bom português deve lembrar
A data que nos salvou de mais esbulhos.
Heitor Couto - Julho de 1980
Os nomes de Rio Maior
Várias personalidades de Rio Maior tiveram um papel de destaque nos eventos de 1975, liderando e inspirando a mobilização dos agricultores - e continuam, 50 anos depois, a guardar essa memória.
Adelino da Costa Bernardes
Presidente da APA de Rio Maior durante mais de 4 décadas
Coordenador da resistência no 13 de Julho e líder local ao longo de 1975. Adquiriu a sede da associação e o seu equipamento, e foi homenageado com a Medalha do Concelho em 1991.
Joaquim da Nazaré Gomes
Presidente da APA · Delegado a Belém
Participou nos confrontos de 13 de Julho e integrou o grupo de quatro representantes que negociou com o Conselho da Revolução na madrugada de 25 de Novembro. Continua, em 2025, à frente da Associação.
Eng. José Manuel Casqueiro
Presidente do Secretariado Nacional de Agricultores
Coordenou os esforços nacionais a partir de Rio Maior e liderou a delegação a Belém. Tornou-se o primeiro Secretário-Geral da CAP. Tem hoje um monumento erguido em sua memória no CNEMA, em Santarém.
Eng.º Luís Mira
Secretário-Geral da CAP (2025)
Representou a CAP nas comemorações dos 50 anos em Rio Maior, sublinhando o papel do 13 de Julho na "estabilização do processo democrático" português.
Adriana Agostinho
Jovem agricultora
Proferiu, nas comemorações de 2025, a alocução em honra do Agricultor Livre: "a sua liberdade não é apenas o direito de produzir - significa também ser um defensor da sua comunidade."
Luís Madeira & Guilherme Jacinto
Delegados a Belém
Agricultores do concelho de Rio Maior que integraram, com Casqueiro e Nazaré Gomes, a comitiva enviada a Lisboa na madrugada de 25 de Novembro.
Outros nomes relevantes
O Prof. Raúl Rosado Fernandes, cofundador e mais tarde presidente da CAP; o Coronel Jaime Neves, que manteve contacto direto com os delegados de Rio Maior na madrugada de 25 de Novembro e recebeu, anos mais tarde, uma homenagem no Pavilhão Multiusos de Rio Maior; os agricultores fundadores homenageados em 2025 - Alberto Nogueira Costa, Celestino Guedes Nogueira Santo, Vítor Machado Sequeira, António Carvalho Machado e o Eng.º José Luís Antunes Barroso; e figuras nacionais como Mário Soares, que visitou Rio Maior a 13 de agosto de 1975 em solidariedade com os agricultores.
Um capítulo notável da história portuguesa
Os agricultores de Rio Maior protagonizaram um capítulo notável da história portuguesa contemporânea. Defenderam as suas terras e a sua liberdade, enfrentando um poder revolucionário dominante, e contribuíram de forma decisiva para a viragem política que devolveu Portugal ao caminho da democracia representativa.
O 13 de Julho preparou e anunciou o 25 de Novembro, tanto na motivação quanto nos meios de ação. A conjugação de preparação local, ação direta corajosa, importância simbólica e organização pós-conflito - a fundação da CAP - faz da participação de Rio Maior nos eventos de 1975 um exemplo singular de como uma comunidade rural pode influenciar os rumos de uma nação.
"O 13 de Julho de 1975 em Rio Maior NÃO MORRE! Foram os agricultores livres que escreveram essa página da nossa História."
Cinquenta anos depois, Rio Maior continua a ser lembrado como um dos lugares-símbolo onde se decidiu o rumo do regime democrático português. Viva o Agricultor livre! Viva Rio Maior! Viva Portugal!
