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13 de Julho · Rio Maior

História

Dos acontecimentos de 1975 à fundação da CAP.

Prefácio da edição de 2025

Palavras do Presidente da APA

Na qualidade de Presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Região de Rio Maior (APA), é com grande orgulho e sentido de responsabilidade que me dirijo a todos, neste momento tão simbólico.

Quero, em primeiro lugar, destacar o facto de esta Associação ter sido constituída a 3 de dezembro de 1974. Foi uma das primeiras associações de agricultores fundadas no novo regime democrático, nascida da vontade firme de defender os direitos dos produtores agrícolas da nossa região.

Deixo aqui uma sentida homenagem a todos os que, com visão e coragem, subscreveram os estatutos fundadores. Em especial, quero prestar tributo a um dos mais notáveis entre eles - o agricultor Adelino da Costa Bernardes, que presidiu esta instituição durante mais de quatro décadas. Muito do que a nossa Associação é hoje se deve ao seu trabalho incansável e ao seu espírito de missão. Trabalhou longos anos com prejuízo para a sua vida pessoal, sempre em prol desta casa, sem nada pedir em troca. Por motivos de saúde - e a seu pedido - deixou a presidência em 2025. Em nome de todos: um bem-haja, Adelino Bernardes.

Quero ainda deixar um agradecimento muito especial à nossa colaboradora Isabel Henriques, que com toda a sua dedicação tem assegurado, há décadas, o bom funcionamento desta casa.

A minha segunda palavra é de sincero reconhecimento a todos os que aceitaram colaborar comigo nesta nova fase da Associação. Alguns já faziam parte da estrutura, outros entraram de novo, mas todos compõem uma equipa extraordinária, da qual me orgulho profundamente.

"Há 50 anos, os agricultores da nossa região levantaram-se na defesa da propriedade privada e da liberdade do agricultor. O nosso Grémio da Lavoura resistiu à tentativa de ocupação por forças reacionárias de esquerda. Hoje, como ontem, estamos aqui: firmes, unidos e fiéis aos nossos princípios."

Resta-me um último agradecimento a todos os que colaboraram na edição do livro comemorativo dos 50 anos do 13 de Julho. O vosso contributo foi essencial para que este número refletisse a história, a luta e a identidade dos nossos agricultores.

J. N. G., Presidente da APA de Rio Maior

Ouvir o testemunho de Nazareth Gomes → Que fique para memória futura

O dia em que Rio Maior disse não

No Verão Quente de 75, Rio Maior viveu um dia que marcaria a sua história: 13 de julho de 1975.

Portugal vivia em plena ditadura gonçalvista, com a comunicação social nacionalizada, tal como a banca, os seguros e as maiores empresas. Sucediam-se as ocupações selvagens a herdades, empresas e outras estruturas da lavoura no Alentejo e no Ribatejo. A única estação de televisão do país bombardeava a toda a hora com palavras de ordem do socialismo - "morte aos latifundiários! O poder aos trabalhadores!" - e quem não se dizia comunista era rotulado de fascista. As greves sucediam-se na cintura industrial de Lisboa e os donos das fábricas eram obrigados a abandoná-las.

Foi neste ambiente que a Liga dos Pequenos e Médios Agricultores, afeta ao Partido Comunista, vinha ocupando os grémios da lavoura a partir do sul do país, tendo marcado para Rio Maior a ocupação do grémio local, ao meio-dia de 13 de julho de 1975.

Como o país vivia num clima de medo, ninguém ousava enfrentar a ditadura instalada. Mas os agricultores de Rio Maior foram os primeiros a opor-se ao estado de terror imposto pela extrema-esquerda: concentraram-se à porta do seu Grémio e não permitiram que a ocupação se desse. Uma fuga de informação, na véspera, tinha posto os agricultores em alerta - e ao saberem que o seu Grémio estava prestes a ser ocupado por gente vinda de Alpiarça e arredores, os populares mobilizaram-se para o impedir.

Multidão reunida em Rio Maior, 1975
Rio Maior, 1975 - fotografia de José Valério Colaço.
Concentração popular em Rio Maior, 1975
Concentração de agricultores e população, Rio Maior, 1975.

Houve escaramuças, apreensão de espingardas aos ocupantes e a destruição das sedes locais do Partido Comunista e da Frente Socialista Popular. Foi o primeiro grito de revolta contra os desmandos que ameaçavam o país - e, como não houve repressão policial, as ações alastraram-se a outros municípios, sobretudo a norte.

Como curiosidade, dias antes tinha sido "apresentada" a moca de Rio Maior, criação de "Abílio das Lenhas", objeto que ficou associado a estes acontecimentos - e que persiste, despido de qualquer conotação política, no artesanato local.

Os ânimos acalmaram horas depois com a chegada de militares do Regimento de Infantaria nº 5, de Caldas da Rainha. Mas no dia seguinte voltaram a inflamar-se com os comentários dos jornais de Lisboa, controlados pelo Conselho da Revolução, que chamavam "arruaceiros" aos riomaiorenses - o que levou a população a unir-se de novo, desta vez para interceptar e destruir na estrada os exemplares dos jornais vindos da capital, num boicote que durou mais de uma semana.

Recorte de jornal '13 de Julho não morre' com tratores na estrada
Página do livro comemorativo: tratores e populares na estrada, memória viva de "13 de Julho não morre".

Neste momento de união, nasceu o embrião da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que seria fundada nesse mesmo ano, brotando de uma magna reunião em Rio Maior. Aos agricultores de Rio Maior juntaram-se agricultores de todos os cantos de Portugal, numa luta que se prolongou por quatro meses, com manifestações e plenários em todos os distritos e concelhos do país - até à grande manifestação de milhares de agricultores, na tarde de 24 de novembro, que daria o mote para os acontecimentos do dia seguinte: o 25 de Novembro de 1975, em que a esquerda reacionária foi derrotada e reposta a democracia prometida em 25 de Abril.

Feriado Municipal

De 1976 a 1985, o feriado municipal de Rio Maior celebrava-se a 13 de julho, com o nome de "Dia do Agricultor Livre". A Avenida 13 de Julho, que liga a Estrada Nacional 1 (EN1) à Estrada Nacional 114 (EN114), preserva a homenagem ao que essas duas vias estruturantes significaram para a região e para o país.

Foi José Valério Colaço - então um jovem ligado à música, à cultura e ao movimento associativo, e técnico farmacêutico aposentado à data da edição de 2025 - quem registou com a sua câmara fotográfica alguns dos momentos desse "turbilhão de acontecimentos" vividos nas ruas de Rio Maior, captando a prova da solidariedade e união de cidadãos, trabalhadores e proprietários na defesa da sua terra, do seu país e da liberdade.

"O 13 de Julho de 1975 em Rio Maior NÃO MORRE! Foram os agricultores livres que escreveram essa página da nossa História. Em plena ditadura gonçalvista, os agricultores de Rio Maior não hesitaram!"
Viva o Agricultor livre! Viva Rio Maior! Viva Portugal!

Parte do Relatório Histórico "O 13 de Julho de 1975 em Rio Maior - Cronologia, Protagonistas e Legado", citado no livro comemorativo: "Em 13 de julho de 1975, a vila ribatejana de Rio Maior tornou-se palco de um dos episódios mais marcantes do chamado Verão Quente pós-Revolução de Abril."

"A moca de Rio Maior"

Termo popular para o confronto de 13 de Julho de 1975, criado por "Abílio das Lenhas", pela profusão de paus usados para expulsar os ocupantes do Grémio da Lavoura. Persiste, sem conotação política, no artesanato local.

O desfecho

Relembrar o 25 de Novembro de 1975

Foi aqui, em Rio Maior, na véspera do 25 de novembro de 1975, que se deu o sinal necessário para que as forças armadas moderadas avançassem para a conquista da liberdade e da democracia que havia sido amordaçada em 11 de março desse ano - data em que fora nomeado, sem eleição, Vasco Gonçalves para primeiro-ministro, com nacionalização imediata da banca, dos seguros, da comunicação social e das grandes empresas.

Nesse verão quente, o Alentejo e o Ribatejo estavam sob forte influência do Partido Comunista: as cooperativas a sul do Tejo, e as ligas de pequenos e médios agricultores, estavam nas suas mãos, e essas estruturas vinham ocupando os grémios da lavoura por todo o país. O primeiro ensaio dessa avançada para norte deu-se mesmo às portas de Rio Maior, com a ocupação selvagem da Torre Bela.

À Associação dos Agricultores de Rio Maior (AARM) chegavam, de todas as partes do país, centenas de telegramas a felicitar os agricultores pela sua tomada de posição em julho. Perante isto, a AARM criou um Secretariado Nacional de Agricultores (SNA), presidido pelo Eng. José Casqueiro, para divulgar os passos a dar face ao descalabro que o país enfrentava. Com a conivência de militares moderados, marcou-se para Rio Maior, a 24 de novembro, uma manifestação de âmbito nacional: mais de 50 mil agricultores, segundo o testemunho direto de Joaquim Nazaré Gomes.

Povo de Rio Maior em 25 de Novembro de 1975
Povo de Rio Maior em 25 de Novembro de 1975.
Ramalho Eanes e Jaime Neves no Quartel dos Comandos na Amadora
Ramalho Eanes e Jaime Neves, Quartel dos Comandos, Amadora, após o 25 de Novembro de 1975.
José Manuel Casqueiro dirigindo-se a agricultores, 1980
José Manuel Casqueiro dirigindo-se a agricultores, em 1980.

Testemunho de Joaquim Nazaré Gomes · agosto de 2026

"Partilhava com o Coronel Jaime Neves uma relação de amizade. Falávamos muitas vezes, durante o Verão Quente, sobre a situação do país. Era intenção dele, se as coisas descambassem para uma guerra civil, trazer as tropas para a Serra dos Candeeiros, aqui em Rio Maior, e daqui fazer frente aos revolucionários de esquerda. Contava com o apoio de Rio Maior e daqui para norte - e dizia que daqui nunca a revolução passaria."

O 25 de Novembro de 1975 - imagens de época do Arquivo RTP, com os Comandos da Amadora e o Coronel Jaime Neves.

Nessa grande manifestação foi aprovado o Caderno Reivindicativo de 13 pontos e decidido o corte das estradas de Lisboa ao Porto, de Porto Alto, da linha de comboio do Oeste e ainda de outras vias secundárias, com o fim de pressionar o governo a aprovar as reivindicações dos agricultores.

A madrugada em que tudo mudou - testemunho de Joaquim Nazaré Gomes

  1. -Terminada a grande manifestação, o representante dos agricultores, Eng. José Casqueiro, é abordado por dois elementos do Conselho da Revolução, que lhe pedem para uma delegação se deslocar a Belém.
  2. -Partem de Rio Maior quatro agricultores: o Eng. José Casqueiro, Luís Madeira, Guilherme Jacinto e Joaquim da Nazaré Gomes.
  3. 06hA reunião no Palácio de Belém, com o Conselho da Revolução, termina com a promessa de que o governo analisaria as pretensões dos agricultores.
  4. -À saída, os delegados cruzam-se com Jaime Neves, no início da Calçada da Ajuda, que lhes diz estar ali para intercetar material militar vindo de Angola.
"Horas depois vim a saber que já estava em marcha o 25 de Novembro, onde finalmente nos foi restituída a liberdade e a democracia que nos tinha sido prometida no 25 de Abril de 1974."
- Joaquim da Nazaré Gomes
Legado organizativo

A fundação da CAP nasceu em Rio Maior

A mobilização de Rio Maior teve um legado organizativo duradouro: a criação da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). O Secretariado Nacional de Agricultores, sediado na vila, atuou como embrião da Confederação, cujos estatutos foram aprovados na grande manifestação de 24 de novembro de 1975. Rio Maior foi sede da CAP durante quase duas décadas, até a Confederação se transferir para Lisboa em 1993.

O Eng. José Manuel Casqueiro tornou-se o primeiro Secretário-Geral da CAP; Raúl Rosado Fernandes, cofundador, seria mais tarde eleito presidente da Confederação. Do lado local, a APA de Rio Maior tornou-se uma das associadas nucleares, com Adelino da Costa Bernardes a representar a vila nos congressos fundadores.

Eng.º Luís Mira, Secretário-Geral da CAP

"Em 13 de julho de 1975, em Rio Maior, centenas de agricultores uniram-se para proteger o Grémio da Lavoura, num gesto de firmeza e coragem que se tornou símbolo da defesa dos direitos do setor e da dignidade da agricultura nacional. Este levantamento marcaria o início de um movimento de defesa da propriedade privada, fundamental para a estabilização do processo democrático e para a consequente consolidação da democracia em Portugal. [...] Os agricultores de Rio Maior [...] estão de parabéns por terem proporcionado liberdade aos nossos agricultores durante cinco décadas, e por terem contribuído para a liberdade de todos os portugueses."

O testemunho pessoal chega também de Maria Júlia Figueiredo, que escreveu para o livro comemorativo de 2025: "Boa memória deste dia que, há 50 anos, disseram 'Não, Nunca' aos oportunistas sem carácter. [...] trabalhar a terra é ter coragem para obter a liberdade [...] o parasitismo não vencerá."

Em julho de 2025, no cinquentenário do "Dia do Agricultor Livre", a direção nacional da CAP celebrou a efeméride na própria vila, reconhecendo que foi "desse movimento de agricultores livres, em julho de 1975, que viria a nascer" a Confederação.

Conclusão

Um capítulo notável da história portuguesa

Os agricultores de Rio Maior protagonizaram um capítulo notável da história portuguesa contemporânea. Defenderam as suas terras e a sua liberdade, enfrentando um poder revolucionário dominante, e contribuíram de forma decisiva para a viragem política que devolveu Portugal ao caminho da democracia representativa.

O 13 de Julho preparou e anunciou o 25 de Novembro, tanto na motivação quanto nos meios de ação. A conjugação de preparação local, ação direta corajosa, importância simbólica e organização pós-conflito - a fundação da CAP - faz da participação de Rio Maior nos eventos de 1975 um exemplo singular de como uma comunidade rural pode influenciar os rumos de uma nação.

"O 13 de Julho de 1975 em Rio Maior NÃO MORRE! Foram os agricultores livres que escreveram essa página da nossa História."

O legado de 1975 mantém Rio Maior como um dos lugares-símbolo onde se decidiu o rumo do regime democrático português. Viva o Agricultor livre! Viva Rio Maior! Viva Portugal!